domingo, 5 de setembro de 2010

Síntese do personagem desejado.

Eu sou Catarina, tenho hoje 23 anos, e minha história começou nos 17 quando cheguei em São Paulo. Sou filha do tão conhecido Zé do Queto, um cangaceiro da qual me perdi junto a minha mãe quando cheguei aqui na rodoviária. Viemos fugidos do sertão do Nordeste, se a gente ficasse lá, a diferença seria que não teria nem a mim para contar essa história. Até onde sei sou a nona de nove filhos, minha mãe dava cria na mesma velocidade com que paizinho estourava os miolos de alguém.

Fiquei três dias andando por essas ruas enormes de São Paulo, no terceiro de tarde passei em frente a uma porta muito colorida da qual me chamou atenção, entrei e vi a coisa mais bonita, umas mulheres lindíssimas dançando, sendo assistidas e aplaudidas por homens. Gostei. Me ofereceram comida, cama só não roupas lavadas. É nisso que estou até hoje. Sou dançarina de poli-dance. Só não sabia da conseqüência das minhas danças, tive que aprender a satisfazer o desejo dos homens ao me olharem naquele palco. Posso dizer que foi assim que aprendi a rebolar para a vida.

Me perguntam se é opcional. É claro que é opcional! Foi isso que o meu destino quis não é? Foi essa opção que me deram, então é. É como assinalar a resposta correta em uma prova, entende? A diferença é que quem escreve não sou eu.

Hoje em dia não faço mais o serviço sujo depois da minha dança. Elas chamam de vitrinista, agora os homens apenas me observam e ostentam, mas não pode ter. A Monise, que foi quem me ensinou tudo da dança virou a dona da boate, por isso que hoje eu ganho para ser exposta, e ajudo ela é claro, no que precisar. É ela quem sempre me diz que a inocência me engoliu.

É engraçado rever assim tudo que já passei, não tenho muito tempo para isso. Um dia conversei com um rapaz lá no serviço, e ele me disse da alma do ser humano. Eu não acredito muito não, porque ele me disse que alma esta ligada a felicidade. Eu não tenho alma, ou talvez ela tenha ficado lá no sertão. Ou talvez não. Mas também acho que não é só porque não tenho alma que eu seja triste, eu apenas aceito.

É que nem o tal do amor. Todo mundo diz que isso aí é além de tudo sabe? É de outro mundo... então nunca conhecerei, porque sou desse mundo aqui. E esse mundo aqui já esta cheio demais para encaixar mais um. Vai ver que o amor e a alma moram juntos.

Uma vez ouvi um trecho de uma música, que agora levo comigo: o mundo vai acabar, e ela só quer dançar. Dançar, dançar e dançar.

Tábatta Iori

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